07 outubro 2017

ANGELITOS NEGROS

ANGELITOS NEGROS

                        Sérgio Roxo da Fonseca

            Na década de cinquenta a música“Angelitos Negros” fez muito sucesso no Brasil. Era cantada em espanhol. Exortava os artistas a pintarem anjos negros, ainda quando a Virgem Maria seja branca. Paradoxalmnte no Brasil é venerada uma virgem negra, a Nossa Senhora de Aparecida. Na Espanha também. Ainda assim o argumento prevalece, não percebemos anjos negros em nossas igrejas.
            O poema lembra que os negros também vão ao céu, não apenas os brancos, daí resultando a necessidade de se pintar anjos negros.
            O tema vem à memória em razão do conflito racial ocorrido nos Estados Unidos, palco da morte de um rapaz acusado de terfurtado alguns cigarros. Diz o noticiário que levou seis tiros do policial. Com certeza não vai ser o último episódio de um filme muito antigo no qual os índios e negros sempre figuraram como bandidos perigosos para os brancos.
            Mas há um contra-argumento. Mas já elegeram um negro para presidente dos Estados Unidos. Formado em Harvard. Há alguns anos atrás, o principal chefe militar daquele país era mulato. Os restaurantes de lá recebem cada vez mais pessoas denominadas “de cor”.
            Muito embora o Brasil proclame ser um exemplo de convivência racial, o mesmo aqui nem sempre ocorre. Já tivemos um mulato na Presidência da República, mesmo assim para cumprir um mandato tampão. Mas negro, não.
            Dificilmente encontramos negros exercendo profissões universitárias. Assim médico, engenheiro, juízes, promotores, diplomatas, invariavelmente são brancos.
            Fenômeno semelhante se passa em nossos restaurantes nos quais raramente se percebe a presença de negros. O contrário ocorre, com certeza, em nossas prisões. Há uma discriminação silenciosa no Brasiltalvez maior do que nos Estados Unidos.

            O contraste entre o panorama norte-americano e o brasileiro, exige que se faça uma avaliação do que ocorre em nosso país. Falta muito trabalho para que se possa dizer que somos um exemplo de convivência racial. Precisamos pintar anjos negros em nossas igrejas, retirando-os das grades de nossas prisões.

01 agosto 2017

CARTA ABERTA AO MINISTRO DA SAÚDE

CARTA ABERTA AO MINISTRO DA SAÚDE

Senhor Ministro

O Sr. não poderia conseguir meio mais eficaz para se colocar como inimigo da maioria dos Médicos brasileiros do que sua falácia quanto a “médicos que fingem trabalhar”. Apenas escaparão como seus aliados aqueles que sua mensagem atingiu, ou seja, os médicos que fingem que trabalham. Mas, o Sr. vai se decepcionar, eles são pouquíssimos. O MÉDICO BRASILEIRO TRABALHA MUITO!
É pena que o Sr. chegue a ocupar o Ministério da Saúde e não conheça como,o trabalham os Médicos de seu País: sem material adequado, agredidos em hospitais e unidades de saúde, assaltados nas unidades mais periféricas, mortos em acidentes, ao sair cansados de plantões, contaminados no seu trabalho por falta de equipamentos de proteção. A lista é muito mais longa, mas ficaremos por aqui.
Como o Sr. deve saber,  de um modo geral os médicos brasileiros se dirigem para assistência, pesquisa ou docência.
Sua equipe  certamente tem amplo acesso à mídia e deve saber que estão cada vez piores as condições para trabalho em pesquisa e docência em nosso País. Entre os nossos melhores profissionais muitos estão saindo do Brasil em busca de condições dignas de trabalho, muitas vezes para terminar pesquisas começadas aqui e interrompidos, não por ‘fingir que trabalha”, mas por falta de matéria prima, insumos, equipamentos e recursos humanos auxiliares.Esses colegas carregam para o exterior todo o aprendizado de anos e anos, bancados com os recursos saídos, direta ou indiretamente, de recursos vindos dos bolsos dos brasileiros. Se pudessem não fariam essa opção. Carregam também a sensação amarga de não conseguir realizar sonhos que envolviam a vida e o futuro em seu  Pais. Sentem, no fundo da alma, a enorme decepção de saber que as autoridades pouco ou nada fizeram para impedir seu exílio, voluntário mas forçado pelas condições precárias que nossos governos legaram ao Brasil. Sabem, como todos nós que seu governo dirá que a culpa é do governo anterior, assim como o governo anterior alegava que os culpados estavam nos governos dos antecessores. Já estamos fartos desse joguinho político e cansados de assistir ao mesmo filme de terror, agora acrescido de sua declaração que atinge toda a classe médica brasileira e mostra sua enorme insensibilidade e  seu desconhecimento dos reais problemas que afligem a saúde do Brasil.
Como o Sr,. deveria saber, a situação na área da assistência à saúde pública é ainda pior. Falta de tudo, e não estamos falando de coisas complexas ou altamente tecnológicas. Desde fios e compressas até medicamentos do dia-a-dia. Hospitais, unidades de saúde e mesmo faculdades insistem em tentar conseguir condições mínimas para que os profissionais possam exercer adequadamente seu trabalho. E o Sr. diz que os médicos fingem que trabalham? Nós perguntamos se o Sr. trabalha para resolver nossos problemas de saúde ou finge que trabalha, fazendo declarações de alcance nacional como esta? Sabemos que o Sr. não é da área da saúde e não sente pessoalmente as enormes necessidades desse País doente. É mais  fácil, como tem feito a maioria de seus antecessores, colocar a culpa nos médicos, certamente o elo mais frágil na corrente que deve manter um bom sistema de saúde. Primeiro vocês argumentaram que faltavam médicos e aumentaram o número de vagas nas faculdades e o número de novas faculdades. Trouxeram médicos do exterior sem passar por exames de qualificação (todos seriam médicos realmente?). Como não deu certo e não querem confessar que o problema não está  no trabalho médico, mas na ineficácia de um sistema desequilibrado, querem agora dizer que o problema não é mais no número de médicos, mas no pretenso fato de que os médicos fingem que trabalham. São argumentos pouco mais que infantis, e seria necessário que a população percebesse esse jogo para que ele fosse desfeito, mas, infelizmente, as mídias de acesso colocadas à disposição das pessoas estão em sua grande maioria comprometidas com as condutas governamentais ou de grandes empresas.Ainda assim vamos continuar insistindo com a verdade e a verdade é que A GRANDE MAIORIA DOS MÉDICOS BRASILEIROS TRABALHA MUITO, EM MÁS CONDIÇÕES PARA O EXERCÍCIO PROFISSIONAL E NÃO PODE ARCAR COM ESSA ARMAÇÃO, QUE NÃO É NOVA, DE QUERER ENGANAR A POPULAÇÃO COLOCANDO NAS COSTAS DOS MÉDICOS UMA RESPONSABILIDADE QUE NÃO É NOSSA, MAS DE UM SISTEMA BEM PLANEJADO, MAS GERENCIADO POR PESSOAS INCAPAZES DE ENTENDER QUE O BRASIL É UM PAÍS DE MUITAS DOENÇAS, MAS A PRINCIPAL DELAS É A INSENSIBILIDADE POLÍTICA QUE POR TANTOS ANOS AQUELES QUE ESCOLHEMOS NAS URNAS  CUIDAM DE MANTER.

Cordialmente.

Prof. Dr. Isac Jorge Filho

- MÉDICO -.

26 maio 2017

BERNARDINO SORVETEIRO - Sérgio Roxo da Fonseca

BERNARDINO SORVETEIRO

                        Sérgio Roxo da Fonseca

            Tenho perguntado aos meus contemporâneos qual seria o instrumento de sua memória que documenta o período da nossa infância. Inclusive aqueles que nem mais residem em Ribeirão Preto.Quase sempre elegem o sabor do sorvete de leite feito pelo Bernardino.
            A experiência lembra o extraordinário “Em Busca do Tempo Perdido” tendo em conta que Proust registra que escreveu o seu extenso romance após ter uma experiência semelhante. Ao tomar um chá de tília acompanhado com uma madalena, biscoito francês, sua memória, por conta do sabor, abriu as portas do seu passado, transportando-o, inicialmente, a sua infância, quando então narra a primeira parte do seu longo trabalho sob o título de “No Caminho de Swann”.
            Anoto que Sérgio Buarque de Hollanda, após aplaudir o trabalho do tradutor brasileiro, Mário Quintana, criticou a tradução por ele dada ao título, que lhe parece que teria recebido a influência da tradução inglesa, “Swann’s Way”. Proust batizou a narrativa com o nome de “Du côté de chez Swann". Buarque de Hollanda observa que o autor não quis, com o título, fazer a indicação geográfica da casa de Swann, mas, sim, transformá-lo no símbolo individualista da nova França. Portanto, a melhor tradução seria “Na direção de Swann”, ou seja, na direção da nova França.
            Seria possível transportar a lição de Buarque de Hollanda para a época em que terminava a Segunda Grande Guerra, dias nos quais fomos para a primeira escola em busca da alfabetização?O sorvete no lugar de Swann?
            Com autorização médica, resolvi buscar resposta à indagação intrigante. Fui ao meu atual sorveteiro e consultei que sorvete é o tal do sorvete de leite. Respondeu-me que era o sorvete de nata. Desenvolvi a minha pesquisa pedindo uma casquinha. Para minha surpresa, o sorvete de nata pouco ou nada o sabor do sorvete de leite que guardo na memória. Há razão para isso?
            A resposta foi positiva. O sorvete de leite era feito com leite não pasteurizado. O sorvete de nata com leite pasteurizado. Este segue o caminho dos novos tempos. Aquele indica um caminho guardado nos escaninhos da memória. Não há mais o sorvete de leite natural. É proibido usar leite natural porque hoje transmite doenças que não existiam então. Ou se existiam não causavam tanto mal como “espinhela caída”, esta sim atemorizava multidões.

            Curiosamente, o sabor do passado permanece na nossa memória, tanto que ainda conseguimos realizar o diagnóstico diferencial entre um sorvete e outro, mesmo depois de passados mais de setenta anos de caminhadas pelas veredas e pelas não-veredasque nos levam tanto ao passado quanto às sorveterias. . Ainda temos memória para identificar a individualidade daquele antigo sabor mesmo reconhecendo que o manto escuro do silêncio começa a descer sobre os novos e os antigos passos. Por que o sabor do chá de tília levou Proust a escrever um romance com sete livros? Por que o sabor do sorvete de leite do passado encontra-se ainda oculto na memória já cansada dos seus contemporâneos?  Ou será que aquele tempo não está perdido, podendo ser recuperado?  Difícil identificar a ponte que liga o hoje com o ontem que se nega a passar. Que a ponte não seja destruída. Ou pelo menos que suporte outros dias qualificados pelos tantos sorvetes do passado e do presente.

15 maio 2017

PEQUENA HISTÓRIA DE MEU PRIMEIRO DIA DAS MÃES

PEQUENA HISTÓRIA DE MEU PRIMEIRO DIA DAS MÃES

ISAC JORGE FILHO

                        Nos meus primeiros nove anos vivi em uma vida de cidade pequena e encantadora,  pouco mais que rural. Em 1952 meus pais decidiram enviar-me para um colégio de conceito maior que a pequena “Escola da Dona Zezé” que ficava na garagem de sua casa. O destino seria o famoso Instituto Gammon, em Lavras, distante de Monte Carmelo o suficiente para consumir 28 horas de viagem pela Rede Mineira de Viação – RMV (que nós chamávamos de “Ruim Mas Vai”, com duas baldeações, em Ibiá e em Garças de Minas). Apesar dos apelos do Padre César para que não me enviassem para “estudar protestantismo” fiz meus 10 anos em Março no Colégio Evangélico de Lavras, um Internato sem guardas e com alto respeito à autonomia, ligado a um respeitável grupo evangélico norte-americano, proprietário também da Escola Superior de Agricultura de Lavras (ESAL, hoje instituição pública federal). Foi lá que tive conhecimento do “Dia das Mães”, celebrado nos Estado Unidos desde 1865 pela ativista Ann Maria Reeves Jarvis com o nome de “Mother’s Friendship Days (Dia de amizade pelas Mães) com o objetivo de melhorar as condições dos feridos na Guerra da Secessão. Vale lembrar que a idéia de cultuar as mães não era nova. Segundo a Enciclopédia Britânica a comemoração mais antiga para o Dia das Mães vem da Grécia antiga, que na entrada da primavera homenageava Cibele ou Rhea, a grande Mãe dos Deuses.
A forma atual do Dia das Mães se deve aos esforços da filha de Ann Maria, a metodista Anna Jarvis, que iniciou uma campanha para que o Dia das Mães fosse reconhecido como um feriado nacional. Após Resolução, assinada pelo Presidente dos Estado Unidos  Thomas Woodrow Wilson,  o primeiro Dia das Mães foi celebrado em 9 de maio de 1914.
Já o meu primeiro dia das mães se deu em maio de 1952 em um culto no qual os internos que tivessem suas mães vivas usavam na lapela uma flor vermelha, símbolo da paixão,  e aqueles que tivessem tido a infelicidade de ter perdido suas mães portavam a flor branca da saudade. A emoção era grande, independente da religião professada pelo estudante, mas ficou ainda maior quando um aluno,  de nome Leandro e de flor branca na lapela, declamou a seguinte poesia:
“MÃE
Nome sagrado,
Que a gente mal em palavras traduz.
Que, com três letras somente,
É maior, mais reluzente, do que o céu cheio de luz.

Nome que é sempre o mais doce
de todos os que a gente aprendeu.
Por mais humilde que fosse, ele que ao mundo nos trouxe
Ele que a vida nos deu.”
Nunca soube quem foi o autor desses versos, nem porque guardei-os em minha memória por tanto tempo. Mas é assim que vejo o “Dia das Mães”,  com essa pureza quase infantil.
É pena que a enorme difusão e comercialização da data tenha mudado tanto seu significado, a ponto de levar sua criadora –Anna Jarvis – a afastar-se do movimento, lamentar sua criação e lutar pela abolição do feriado nos Estados Unidos.
Quanto a mim, continuo desejando para as mães de todo o mundo uma data que represente o espírito existente naqueles versos que meu colega leu em 1952.
Acredito que devemos lutar por um mundo em que impere esse amor materno que envolve sem preconceitos todos os irmãos. É também uma homenagem ao Leandro.

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