22 junho 2013

MÁQUINA DE FAZER DOIDOS

MÁQUINA DE FAZER DOIDOS”
                                                                           Isac Jorge Filho
Era assim que o saudoso Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto) apelidava a televisão. O Sérgio se foi, a televisão ficou...e está cada vez pior. Vale tudo em troca de um ponto de audiência. E tome bacanais organizados em nível nacional, como o BBB, onde se discute se uma relação sexual, apresentada para todo o País (e como dizem, orgulhosamente, para outros países do mundo), foi consentida ou não. E tome programa com manifestações de violência que querem nos impingir como “esporte”, com lutas do antigo “vale tudo”, que agora recebem nomes sofisticados, sempre vindos dos nossos exemplares e pacíficos irmãos do hemisfério norte. Na entrevista de um dos lutadores (que famoso comentarista de uma das emissoras chama de ‘gladiadores modernos’) perguntaram se ele sentia prazer em “bater na cara” do adversário. Resposta: “É meu trabalho. Ou eu bato ou ele me bate”. É esse o recado mandado para toda a grande colcha de retalhos que é o Brasil.
O que se esperaria é que, contrapondo essa agressão televisiva de moral e ética no mínimo discutível, os segmentos culturalmente mais avançados, que pelo menos devem saber, ler, escrever e analisar valores, procurassem dar exemplos. Infelizmente não é isso o que vemos.  Vejamos o que acontece quando milhares de jovens chegam à Universidade. É um espetáculo deprimente que se repete a cada vez que são divulgados os resultados dos vestibulares. Futuros profissionais de nível universitário assumem papéis lamentáveis e recebem seus novos colegas com calorosas manifestações...de selvageria. O que devia ser momento de alegria pela recepção dos novos colegas se transforma em manifestação bestial de desamor ao próximo. As notícias resultantes dessa “recepção” frequentemente são trágicas: é o calouro que morreu afogado, é o outro que ficou cego, é o que sofreu trauma craniano, é o que teve queimaduras pelo corpo... é um circo de horrores perpetrados pelos que deviam ser a elite cultural do país. E estamos falando de jovens que tiveram o privilégio de serem universitários em meio a analfabetos e semi-alfabetizados. Que fazem parte daqueles que receberam mais, em um país onde a regra é receber menos.
Futuros médicos, agora ainda calouros, tomam goles e goles de bebidas alcoólicas enquanto ocupam os pontos onde mendigos pedem moedas, nos cruzamentos das ruas. Chama atenção o número de representantes do sexo feminino tomando vodca, que é a bebida destilada preferida “porque não deixa cheiro e não dá celulite”(???)). Leio na mídia local e nacional que calouros da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo divulgaram nota de repúdio aos trotes que veteranos lhes aplicam e que incluiriam o total absurdo de que as calouras seriam obrigadas a  exibir-se nuas e prometer sexo aos veteranos. Vejam que estamos falando de futuros advogados da mais importante Universidade do País. Esta é a elite. O que se pode esperar de outros, que só tem como orientadores programas televisivos de demonstrações de sexo e violência? Ou será que são esses mesmos telespectadores que chegaram à Universidade e estão levando para ela o brilhante aprendizado de anos diante dos “professores” que dão aulas e exemplos na “máquina de fazer doido”. Afinal, as novelas estão aí, com claros modelos do que consideram “valores” modernos: corrupção, infidelidade, violência e tantos outros.
É coisa séria para nossa Universidade pensar. Será que a atual maneira de selecionar universitários, especialmente aqueles pagos com dinheiro público, está correta? Se estiver, será mais coerente que a escolha se faça em programas de auditório.



07 março 2012

O “TROTE” E A RESPONSABILIDADE ÉTICA DOS FUTUROS MÉDICOS


                                                                                                                 ISAC JORGE FILHO

          É um espetáculo deprimente que se repete a cada vez que são divulgados os resultados dos vestibulares. Futuros médicos assumem papéis lamentáveis e recebem seus novos colegas com calorosas manifestações...de selvageria. O que devia ser momento de alegria pela recepção dos novos colegas se transforma em manifestação bestial de desamor ao próximo. As notícias resultantes dessa “recepção” frequentemente são trágicas: é o calouro que morreu afogado, é o outro que ficou cego, é o que sofreu trauma craniano, é o que teve queimaduras pelo corpo... é um circo de horrores perpetrados pelos que deviam ser a elite cultural do país. E estamos falando de jovens que tiveram o privilégio de serem universitários em meio a analfabetos e semi-alfabetizados. Que fazem parte daqueles que receberam mais, em um país onde a regra é receber menos. A mídia tem divulgado o aumento do número de vagas ocupadas por pessoas mais ricas nos vestibulares de faculdades públicas, mostrando o agravamento da concentração de renda.

          A origem do termo tem interessante simbolismo. Classicamente o trote se refere a certa forma de movimentação de cavalos, situada entre o passo e o galope. É processo que deve ser ensinado, muitas vezes por meio de chicote e espora. Lamentavelmente é dessa maneira que o calouro é encarado, em muitas universidades, pelo veterano. A título de “confraternização”, ele deve ser “domesticado” por meio de práticas humilhantes e vexatórias, geralmente estimulado por grandes quantidades de bebidas alcoólicas que é obrigado a ingerir, para que simbolicamente “aprenda a trotar”. Por incrível que pareça ainda existem defensores do trote, que querem dar a ele a função de rito de passagem ou ritual de iniciação, sendo método para promover a lealdade e a camaradagem do grupo por meio do sofrimento compartilhado, o que criaria um vínculo entre calouros e veteranos.

          Não é assim que deve começar a formação de um médico. Não é assim que deve um universitário, como cidadão, fazer suas manifestações de agradecimento ao sacrifício de muitos para que poucos cheguem à universidade. Os que aí chegam devem ser exemplos de cidadania e não de violência.

          Temos proposto uma campanha nacional pela abolição do trote e substituição por recepção civilizada e social ao novo universitário, que já diferencie aqueles que alguns anos depois vão jurar exercer Medicina ética, com zelo e respeito pelos pacientes e pelos colegas. Pouca gente se preocupa com esta proposta. Continuam vendo, passivamente, futuros médicos embriagados participando, forçados ou não, da celebração das diferenças sociais, já que uma das atividades “clássicas” do trote é pedir moedas em esquinas, ocupando o lugar dos infelizes que, lamentavelmente, vivem dessas esmolas.

          Questionadas a respeito algumas diretorias de faculdades tem respondido argumentando que o trote está proibido dentro de seus “campi”. É pouco. É o mesmo que admitir que, depois de formado, o médico possa cometer barbaridades, desde que não seja no hospital, ambulatório ou consultório.

          A maioria dos calouros é contra esse tipo de trote, mas acaba sendo suplantada pela minoria que o admite porque espera, com ansiedade, o ano seguinte para a “vingança”.

          É fundamental que a categoria médica reconquiste o respeito da população. Não se pode esquecer que o calouro é o futuro médico e o trote selvagem não é maneira correta de se começar o preparo para uma profissão que lida com vida, saúde e ética.



22 janeiro 2012

O ABSENTEÍSMO VISTO POR OUTRO ÂNGULO



                                                                                                                                   Isac Jorge Filho *

          É queixa comum por parte de chefias de empresas privadas ou de repartições públicas a ausência de funcionários em horários de trabalho por diferentes razões, inclusive consultas ou tratamentos médicos e odontológicos. Por outro lado torna-se cada vez mais freqüente um outro tipo de absenteísmo: o do paciente que marca consulta ou tratamento e, sem dar menor satisfação, simplesmente não aparece.

          Trata-se de desrespeito que quebra, já de início, uma futura relação médico-paciente, importante pilar para bons resultados nos tratamentos. No Cremesp temos recebido um número cada vez maior de queixas desse tipo. Não há o que possamos fazer: o Cremesp é uma Autarquia Federal voltada para a fiscalização dos médicos e não dos pacientes. No entanto, alguns colegas tem colocado em suas denúncias a seguinte pergunta: “Quando um paciente que não conheço já falta à primeira consulta sem justificativas tenho direito de orientar a secretaria do consultório para não marcar se este paciente tentar marcar novamente?”. A resposta não é fácil, mas esse direito está bem claro no Código de Ética Médica em vigor, que diz, no inciso VII do Capítulo I (Princípio Fundamentais): “O médico exercerá sua profissão com autonomia, não sendo obrigado a prestar serviços que contrariem os ditames de sua consciência ou a quem não deseje, excetuadas as situações de ausência de outro médico, em caso de urgência ou emergência, ou quando sua recusa possa trazer danos à saúde do paciente”.

          Penso que algo está muito errado na relação entre profissionais de saúde e setores da população quando se chega ao ponto de pensar em não atender um paciente, mesmo preenchidas as condições citadas acima (não é urgência nem emergência, existem outros médicos e o não atendimento naquela ocasião não trará danos à saúde). É um fenômeno que merece amplo estudo especializado. No entanto, não é fácil aceitar que o paciente não entenda que, ao marcar uma consulta, está assumindo um compromisso com o médico ou dentista e ocupando um horário que poderia ser utilizado por outro. Faltar a esse compromisso sem justificativas é ato de desconsideração e desrespeito. Uma boa relação médico-paciente não se inicia assim e talvez seja bom, para as duas partes, nem começar.

          É claro que existem situações excepcionais que justificam a ausência do paciente, mas, na grande maioria das vezes, um simples telefonema, transferindo ou cancelando a consulta, evitaria o problema e demonstraria o respeito mútuo que deve prevalecer em uma boa relação entre pessoas.

• * Isac Jorge Filho é Médico, Conselheiro e Ex-Presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo.

29 dezembro 2011

NOVOS TEMPOS, COM SONHOS E MUDANÇAS



JOSÉ ANÉZIO PALAVERI
Médico (Pirassununga)
Membro da APLACE.



“Um novo céu e uma nova terra..., não haverá mais crianças que vivam alguns dias apenas, nem velhos que não cheguem a completar seus dias...” Isaías 65,20. Feliz 2012. As previsões não são de céu de brigadeiro. Os catastrofistas anunciam nuvens e trovoadas, os que puseram sua fé somente no Papai Noel ainda têm tempo para caírem na realidade, fazerem seus planos, criarem coragem de tomarem atitudes que possam propiciar novos rumos, com novos compromissos e mostrarem que a realidade poderá ser diferente dependendo de seu empenho, de esperanças transformadas em atos e ações diferentes de um comportamento costumeiro de passividade e dependência.

Novos tempos são construídos, com empenho, dedicação, suor, mãos na massa, planejamento, metas, relacionamentos saudáveis, descruzando os braços. Mesmo assim a cruz poderá ser muito pesada se as cargas não forem partilhadas, se a solidariedade não se manifestar, se nenhum cirineu surgir durante a caminhada.

Um tempo diferente, escolhas diferentes, difíceis, certas, no lugar das fáceis, tentadoras, erradas, superficiais, sem compromissos.

Iluminar a dura rotina e a sequência do cotidiano com novas luzes, novos ares. Descobrir a presença da Eternidade que irrompeu em nossa história, e permanece no coração do tempo, de nossas vidas.

Descobrir o valor do momento que foge. Não viver na distração, a única vida concreta acontece no aqui, no agora, no momento presente, não viver na saudade e nem se afogar na preocupação.

Vida curta, as preocupações atrapalham, as ocupações, metem medo, desviam as rotas. Cada momento esconde sua pérola e é muito excitante quando a descobrimos ou fazemos investimentos para possuí-la.

Quantos minutos disponíveis! Já pensou nas revoluções que podem, acontecer num minuto? Uma resolução, um sim consciente, uma decisão refletida, um rompimento de relações, o desperdício de coisas construídas durante anos, uma ofensa, uma separação. Os momentos decisivos e descuidados podem ter sido e significado as melhores oportunidades desperdiçadas.

Desejar, traçar metas, realizar as ações necessárias para que as coisas aconteçam, mesmo com desgaste, sem desperdícios de energias.

Ser protagonista e ser coadjuvante, que o espetáculo da vida não acontece sem todos os seus personagens, não dá para sempre dar a última palavra, ser o astro principal.

Recebemos apoio em nossos planos e apoiamos quem caminha conosco. O mundo é muito pesado para ser carregado sozinho.

Olhar para o lado e ver o parceiro, olhar para trás e reconhecer o necessitado de solidariedade, não desconfiar dele, olhar para frente e reconhecer exemplos a imitar, caminhos a trilhar.

Cada coisa no seu tempo e há um tempo certo para cada coisa. “ tempo para nascer, para plantar, para curar, para construir, para chorar , para bailar, para recolher as pedras, para rasgar, para calar, para falar, para construir a paz...” Sem pressa, vamos sonhando e construindo os novos tempos.











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