22 julho 2014

NÃO, AO COMPLEXO DE VIRA-LATA : Cidadania, Saúde.

NÃO, AO COMPLEXO DE VIRA-LATA

                                                                                  ISAC JORGE FILHO


            Nelson Rodrigues falava, a propósito do “maracanazo”, que o brasileiro tinha um “complexo de vira-lata”. Seria um complexo de inferioridade, considerando sempre que o que se fazia ou produzia aqui era pior que o produzido ou feito no exterior. Todos já ouvimos expressões de louvor ao que é produzido lá fora e críticas mordazes aos produtos brasileiros. “Não dá para ir hoje ao cinema, o filme é brasileiro”... “O complexo vitamínico X é excelente. Eu trouxe dos Estados Unidos”. E por aí vamos... No futebol as vitórias em cinco copas mundiais afastaram o complexo de vira-latas, talvez tenham até trazido o complexo inverso, o de superioridade. A derrota acachapante  por 7X1 contra a Alemanha jogou por terra essa pretensa superioridade e o risco é que voltemos ao complexo de vira-lata, o que seria lamentável pois temos muito do que orgulhar em nosso País. A própria Copa mostrou aspectos positivos reconhecidos em todo o mundo. Se jogadores e Comissão Técnica, que recebem salários milionários e vivem, na sua maioria, no Exterior, não foram capazes de mostrar no campo o futebol que esperávamos, isso não diminui a grandeza do País em muitos aspectos, apesar do esforço de maus políticos e maus brasileiros em puxar no sentido contrário. Por coincidência, no mesmo dia do vexame futebolístico, conheci em Brasília o Hospital Sarah Kubitschek e fiquei admirado com a estrutura e o trabalho ali realizados. O Sarah, fundado por Dr. Aloysio Campos da Paz, é reconhecido internacionalmente como um dos maiores centros de reabilitação no mundo inteiro. Sua estrutura, foi projetada pelo arquiteto carioca  João Filgueiras Lima, o Lelé, parceiro de Oscar Niemeyer. Lelé, que nos deixou recentemente, aos 82 anos, se consagrou internacionalmente não só por seu trabalho em Brasília e pelo uso pioneiro de componentes pré-fabricados. Na área da saúde deixou um legado pela ênfase nas preocupações sociais  e no bem-estar dos pacientes em seus projetos de construção  de hospitais. Até idéias da medicina arabesca da Idade Média foram apanhadas por Lelé. O primeiro hospital a ser construído foi o grande Hospital de Bagdá, com preocupações na ventilação, iluminação e áreas de lazer. No Sarah estas preocupações são claramente percebidas. A vegetação bem planejada, as amplas e confortáveis áreas de circulação e os cuidados com a circulação de ar tornam o ambiente fresco, claro e alegre. Conheci Lelé na Associação de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de Ribeirão Preto. Fiquei admirado com sua palestra e com seu livro: “Arquitetura: uma Experiência na Área da Saúde”, destaque do Prêmio Jabuti. As preocupações sociais e humanísticas de Lelé eram as mesmas de Aloysio Campos da Paz, o fundador do hospital, daí o ambiente diferente dos hospitais comuns que encontramos no Sarah. Cada funcionário contratado pelo hospital passa por um período de adaptação e aprendizado em relações humanas que pode chegar a oito meses.  Tudo isso torna o Sarah um hospital especial. Futebol nada mais é que um esporte, como tantos outros.  Seria muito bom se tivéssemos ganho a Copa, mas,  importante mesmo é ter coisas mais relevantes para nos orgulhar. O Sarah é uma delas. Craques importantes temos muitos, alguns ainda vivos, como Campos da Paz; outros,  como Lelé,  já se foram, mas deixaram motivos mais que suficientes para que não tenhamos mais  o “complexo de vira-lata”.

04 julho 2014

Cidadania: A bíblia de português - Sérgio Roxo da Fonseca

A BÍBLIA DE PORTUGUÊS

                                                                                     Sérgio Roxo da Fonseca

            Li na imprensa que estava sendo lançada uma bíblia de português. A frase, como se vê, tem mais de um sentido. Vejamos alguns deles: 1) a bíblia é de um português; 2) está é a bíblia escrita por um português; 3) está é a bíblia que está sendo vendida por um português. Mas, com certeza, há outros sentidos.
            Na antiguidade os sábios discutiram o teor da frase pronunciada pelo anjo que recebeu as santas senhoras em sua visita ao túmulo de Cristo. O texto examinado continha duas negativas. Teria dito o anjo: “não, Ele não está aqui”. Se a frase estivesse escrita em latim, uma língua lógica, as duas negativas seriam eliminadas, de sorte que a afirmação teria o sentido de “Ele está aqui”. Um “não” mata o outro.
            Em português não é assim. As duas negativas reforçaria a negação: “não, Ele não está aqui”. Ou seja, com certeza ele ressuscitou.
            Os nossos os computadores, que são máquinas tautológicas, são mais latinos do que portugueses. Para eles, duas negativas representam uma afirmação. Menos com menos dá mais.
            São infindáveis as dificuldades encontradas em todas as línguas, muito especialmente em português. Há tempos uma pessoa escreveu uma monumental bíblia para servir de aldabra para abrir as portas do entendimento da nossa língua. Ou seja, da nossa compreensão.
            Refiro-me ao livro “Gramática da Língua Portuguesa Padrão”, resultado de uma extraordinária pesquisa desenvolvida pela festejada professora Amini Bounain Hauy.
            Todos nós vivemos retratando o que vemos por meio de palavras. Quase sempre montamos nossos pensamentos manejando essas mesmas palavras. A extensão do meu mundo é do tamanho da extensão das minhas palavras.
            Nossos cumprimentos dirigidos ‘a pessoa da professora Amini Bounain Hauy, que, cumprindo um dever bíblico, deu água aos sedentos e vestiu os nus, iluminando os caminhos da nossa vida com as luzes sagradas da língua portuguesa. Com certeza, escreveu um bíblia para o português.
           


03 julho 2014

A ditadura da moda: Saúde e Cidadania.

A DITADURA DA MODA E SEUS EFEITOS SOBRE A SAÚDE

 

 

ISAC JORGE FILHO


                                    Ainda está em nossas mentes a divulgação pela mídia da morte de uma jovem modelo como conseqüência de inanição. Era apenas a ponta de um “iceberg”. A busca de mais informações a respeito do assunto, em todo o mundo ocidental, nos levou ao conhecimento de um sem número de complicações e muitas mortes decorrentes da desnutrição de jovens vítimas da “ditadura da moda”, que exige modelos cada vez mais magras. Algumas fotos de modelos  muitas vezes lembram as imagens de  jovens africanas desnutridas, nos tristes episódios de desnutrição em massa, por falta de alimentos, como o que assolou Biafra.
                                    O tema intrigou a Câmara Técnica de Nutrologia do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, formada por médicos que trabalham com distúrbios da nutrição e que levantaram, em reunião especial, na capital paulista, os seguintes tópicos preocupantes:
 
·         As divulgações, pela mídia, de mortes de jovens brasileiras, vítimas de inanição em nome de uma lamentável “indústria da moda e da beleza”.
·         O estímulo, ainda que velado e indireto, de alguns agentes publicitários, algumas empresas que divulgam a moda e “fabricam” as “modelos” ou, ainda, certas instituições de ensino de danças artísticas que cultuam baixo peso como condição.
·         Crianças ou jovens adolescentes em plena fase de crescimento e desenvolvimento, necessitando adequadas ofertas de nutrientes, se submetem ou são submetidas a violentas restrições dietéticas.
·         Por desinformação, muitas famílias estimulam ou apóiam tais restrições dietéticas.
·         A ditadura da moda tem concorrido fortemente para a má orientação alimentar, sendo as crianças com estrutura corporal “fora da moda magra” ridicularizadas em escolas, clubes sociais e, por vezes até dentro da constelação familiar.
·         A Organização Mundial de Saúde considera como parâmetro de qualidade de saúde as pessoas com Índice de Massa Corporal acima de 18,5 Kg/m2 , entendendo como abaixo do peso e portanto sujeito aos riscos da desnutrição valores mais baixos.
·         O processo de desnutrição é altamente lesivo para o organismo, dificultando a formação óssea, o desenvolvimento hormonal e intelectual e propiciando o aparecimento de várias doenças, principalmente as infecciosas, devido a baixa atividade imunológica.

·         Algumas modelos tem IMC entre 14 e 16 Kg/m2 , tendo recentemente falecido modelo com Índice de 13 !


            Por tudo isso, a Espanha já assumiu a dianteira quanto a providências produzindo legislação que proíbe que jovens com índices de massa mais baixos que os preconizados sejam aceitas em empresas de modas e de danças artísticas. Busca, com isso, cortar o caminho que leva a doenças e mortes por inanição crianças e adolescentes que buscam fama e sucesso. A Câmara Técnica de Nutrologia do Cremesp apelou para as autoridades responsáveis pela Saúde Pública brasileira no sentido de que defina e aplique normas rigorosas que busquem coibir, nos diferentes setores envolvidos, a perversa “ditadura da moda e da beleza” que tem levado à doenças carenciais e até a morte crianças e adolescentes em nosso País. Adicionalmente colocou-se à disposição para colaborar no estabelecimento destas normas e providências a serem aplicadas.
 


A PROLETARIZAÇÃO DA MEDICINA - Sérgio Roxo da Fonseca - Saúde, Cidadania

A PROLETARIZAÇÃO DA MEDICINA

                        Sérgio Roxo da Fonseca

            A proletarização profissional contrasta com a ideia da liberalização. O vocábulo tem raiz na antiguidade da nossa civilização que, então, correspondia às pessoas que tinham acesso ao direito de ter filhos, ou prole, como queiram, não podendo, reversamente, ter acesso à propriedade de bens.
            Com a primeira Revolução Industrial passou a ter um significado mais preciso, mas não longe do originário. Proletário passou a ser o contrário de empregador.
            No sentido oposto estava e ainda está a ideia segundo a qual o exercício de algumas profissões, peculiares que são, não podem ou não devem sofrer as injunções próprias do contrato de trabalho, tais como a medicina, a advocacia e a engenharia. Passaram a ser reconhecidas pela expressão “profissionais liberais”, cujos atos devem ser apreciados segundo a ética própria do seu titular.
            A medicina, no entanto, tem sofrido profunda alteração no seu exercício. Afirma-se que a transformação é resultado das necessidades de grandes investimentos na técnica do seu exercício, o que impediria a prática solitária ou individual.
            Realmente, a partir da segunda metade do século XX os médicos aos poucos vão se afastando do exercício liberal, sendo absorvidos por empregadores públicos e privados.
            É bem verdade que teoricamente afirma-se que, mesmo assim, o sistema reserva para cada um deles o juízo ético do exercício dos seus atos profissionais. Porém fica muito difícil afirmar que esta liberdade possa se opor aos interesses corporativos de seus empregadores  públicos ou privados.
            Se a constatação é verdadeira, forçoso admitir que o juízo ético da profissão da medicina está em forçada alteração, caminhando-se para o que hoje conhecemos pelo nome de proletarização. Indaga-se se esta preocupação é verdadeira ou falsa? Se verdadeira ou falsa qual é o sentido do exercício dos atos médicos nos nossos dias? E no futuro?