27 março 2011

A DITADURA DA MODA E SEUS EFEITOS CRUÉIS

ISAC JORGE FILHO A mídia divulgou a morte de uma jovem modelo como conseqüência de inanição. É apenas a ponta de um “iceberg”. A busca por mais informações a respeito do assunto, em todo o mundo ocidental, nos levou ao conhecimento de um grande número de complicações e muitas mortes decorrentes da desnutrição de jovens vítimas da “ditadura da moda”. Uma série de fotos de modelos mais parecia com as fotos que já vimos de pessoas em situações de desnutrição em massa, por falta de alimentos, sendo a ocorrida em Biafra a mais conhecida delas.

O tema intrigou a Câmara Técnica de Nutrologia do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, formada por médicos que trabalham com distúrbios da nutrição e que levantaram alguns aspectos preocupantes:1- As divulgações, pela mídia, de mortes de jovens brasileiras, vítimas de inanição em nome de uma lamentável “indústria da moda e da beleza”.2- O estímulo, ainda que velado e indireto, de alguns agentes publicitários, algumas empresas que divulgam a moda e “fabricam” as “modelos” ou, ainda, certas instituições de ensino de danças artísticas que cultuam baixo peso como condição.3- Crianças ou jovens adolescentes em plena fase de crescimento e desenvolvimento, necessitando adequadas ofertas de nutrientes, se submetem ou são submetidas a violentas restrições dietéticas.Por desinformação, muitas famílias estimulam ou apoiam tais restrições alimentares.

A ditadura da moda tem concorrido fortemente para a má orientação alimentar, sendo as crianças com estrutura corporal “fora da moda magra” ridicularizadas em escolas, clubes sociais e, por vezes até dentro da constelação familiar.

A Organização Mundial de Saúde considera como parâmetro de qualidade de saúde as pessoas com Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 18,5 Kg/m2 , entendendo como abaixo disso, e portanto sujeito aos riscos da desnutrição, valores mais baixos.

O processo de desnutrição é altamente lesivo para o organismo, dificultando a formação óssea, o desenvolvimento hormonal e intelectual e propiciando o aparecimento de várias doenças, principalmente as infecciosas, devido a baixa atividade imunológica.Algumas modelos tem IMC entre 14 e 16 Kg/m2 , tendo recentemente falecido modelo com Índice de 13!

Por tudo isso, a Espanha já assumiu a dianteira quanto a providências produzindo legislação que proíbe que jovens com índices de massa mais baixos que os preconizados sejam aceitas em empresas de modas e de danças artísticas. Busca, assim, cortar o caminho que leva a doenças e mortes por inanição crianças e adolescentes que buscam fama e sucesso. A Câmara Técnica de Nutrologia do Cremesp, que tenho a honra de coordenar, apelou para as autoridades responsáveis pela Saúde Pública brasileira no sentido de que defina e aplique normas rigorosas que busquem coibir, nos diferentes setores envolvidos, a perversa “ditadura da moda e da beleza” que tem levado à doenças carenciais e até a morte crianças e adolescentes em nosso País. Adicionalmente colocou-se à disposição para colaborar no estabelecimento destas normas e providências a serem aplicadas.

18 setembro 2010

III CONGRESSO DE BIOÉTICA DE RIBEIRÃO PRETO

sábado, 18 de setembro de 2010

III CONGRESSO DE BIOÉTICA DE RIBEIRÃO PRETO
COBIRP
Inscrições abertas para 3ª edição do encontro de Bioética em Ribeirão
Entre os dias 7 e 10 de outubro de 2010 o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) realiza o III Congresso de Bioética de Ribeirão Preto, sob a coordenação dos conselheiros Isac Jorge Filho e Reinaldo Ayer de Oliveira, e Marco Aurélio Guimarães, integrante da Câmara Técnica de Bioética do Cremesp.
As inscrições são gratuitas, mas como o número de vagas é limitado, seguiremos a ordem de inscrição para o preenchimento das mesmas.
Envie sua inscrição para eventos@cremesp.org.br ou drrpo@cremesp.org.br
INSCRIÇÃO DE TEMAS
Dentro do caráter da discussão bioética estaremos recebendo, até o dia 02/10/2010, as inscrições de temas polêmicos que serão selecionados para debate nos horários especificados no programa. A inscrição de temas deve seguir o modelo abaixo:
Nome:
Cidade:
Endereço eletrônico:
Área: ( ) Medicina ( ) Enfermagem ( ) Odontologia ( ) Farmácia( ) Fisioterapia ( ) Nutrição ( ) Direito ( ) Administração ( ) Economia ( ) Outra (citar..................)
Situação atual: ( ) Graduado Especialidade: .............( ) Pós-graduando: ( ) Mestrado ( ) Doutorado( ) Residente ( ) Aprimorando( ) Estudante. Série:......
PROPONHO A DISCUSSÃO DO SEGUINTE TEMA: ..........................................................................
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Nos próximos dias, neste espaço, divulgaremos a programação oficial do encontro.
Aguardamos a presença de todos.

08 março 2010

AS MULHERES E SUA LUTA SECULAR

ISAC JORGE FILHO
No dia 8 de março de 1857 as operárias de uma indústria têxtil de Nova Iorque entraram em greve. Submetidas a jornadas diárias de 16 horas de trabalho, recebiam menos de um terço do salário masculino. Reivindicavam a redução da jornada para dez horas. A resposta dos patrões dava bem a medida do tratamento dedicado às mulheres: mandaram fechar as operárias na fábrica, onde um incêndio (Acidental? Criminoso?) levou cento e trinta delas a morte terrível. Em 1910, a Confederação Internacional de Mulheres, realizada na Dinamarca, decidiu, como homenagem àquelas operárias, declarar o Dia 8 de março como o “Dia Internacional da Mulher” e assumir o rosa como cor oficial do movimento, para lembrar a tonalidade rosa-avermelhada do fogo daquele martírio.
Não foi a primeira vez que o fogo participou de forma cruel na longa história de luta das mulheres pela emancipação e eqüidade. Foi por meio dele que supliciavam as “bruxas” do passado. Até a queda do Império Romano “bruxo” era o nome que se dava para um participante de magia. Essas pessoas –na maioria, mulheres- eram respeitadas e temidas por seus conhecimentos, sendo indivíduos especiais. A partir da Idade Média passaram a ser perseguidas, sob acusação de “bruxaria”, todas as mulheres que ousassem pensar ou agir de modo diferente da cultura absolutamente machista e fanaticamente religiosa que imperava. Na Inquisição, as bruxas eram assassinadas “em nome de Deus”. A escolha do fogo, como agente do suplício, tinha a explicação hipócrita das autoridades eclesiásticas da época de que “a Igreja não gosta de verter sangue”. Joana D’Arc foi apenas uma das milhares de martirizadas pelo fogo. Preconceitos e perseguições foram, ao longo dos anos, impedindo que a mulher assumisse seu lugar de direito na sociedade, como pessoa, com direitos e deveres iguais aos do homem. A luta da mulher pela eqüidade é uma das mais duras e penosas da história da humanidade e alguns marcos devem ser lembrados.
Em 1691, o Estado de Massachussetts permite o voto das mulheres, mas elimina-o em 1789. Em 1788 o filósofo e político Condorcet reclama para as mulheres o direito à educação, à participação na vida política e o acesso ao emprego. Em 1792, Mary Wollstpnecraft, pioneira do movimento feminista, publica um conjunto de reivindicações das mulheres. Em 1840, Lucrecia Mott lança as bases da “Equal Rights Association” pedindo direitos iguais para todos. Em 1859 um movimento feminino em São Petersburgo passa a lutar pela emancipação da mulher russa. Em 1862 as mulheres passam a votar nas eleições municipais suecas. Em 1869 o território norte-americano de Wyoming deu o direito de voto às mulheres. Em 1870, na França e Suécia as mulheres passam a ter acesso aos estudos médicos. Em 1874 o Japão inaugura sua primeira escola normal para mulheres. Na América do Sul, o primeiro voto de mulher foi dado por Celina Guimarães Viana, em 1927, em Mossoró (RN), mas o voto feminino no Brasil só foi regulamentado em 1934.
Nunca consegui aceitar o preconceito de gênero, certamente por influência de minha mãe, Cristina, que sempre viveu à frente de seu tempo. Depois, pelos exemplos e ensinamentos da Leila, que conheci na Faculdade de Medicina em uma época que “estudar medicina não era para mulheres”. Sua visão de eqüidade entre os gêneros certamente foi um dos fatores que me levaram a escolhê-la como companheira para toda a vida. Muito do que restou de preconceito, que a cultura machista me legou, minha filha Cristine se encarregou de tirar. Por tudo isso sempre fui uma voz a se levantar à favor da luta das mulheres por seu lugar de direito. Deus me recompensou, ao me conceder duas netas, Luísa e Giovanna, que, certamente, continuarão a luta de sua bisavó, avós e mães. Para marcar essa benção concedeu-me que uma delas nascesse exatamente no dia 8 de março, o “DIA INTERNACIONAL DA MULHER”.
Apesar dos inegáveis avanços, conquistados através de séculos, a luta das mulheres ainda está longe de terminar. Assédio sexual, violência no lar, dificuldade em empregos, salários mais baixos que os dos homens, são coisas que ainda existem, em níveis variáveis, em diferentes países e em diferentes regiões. São problemas que atingem a mulher, mas que interessam a todos, já que dizem respeito à dignidade humana e a luta pela dignidade humana é dever de todos e de cada um.

31 dezembro 2009

SE O ANO É NOVO, VAMOS PENSAR O NOVO

“Não fiquem lembrando do passado, não pensem nas coisas antigas, vejam que estou fazendo uma coisa nova, ela está brotando agora e vocês não percebem?” Isaías 43, 18-19.

Queremos mudar e vamos repetindo sempre as mesmas rotinas e depois ficamos reclamando que o mundo não vai bem, que nada dá certo, que antigamente é que era bom, que, do jeito que as coisas vão, estaremos perdidos, que isso mais aquilo.
Esquecemo-nos de que o mundo é uma aldeia e de que o que acontece por aqui ou em outro hemisfério tem repercussões globais.
Minha família vai bem, estou empregado, tenho minhas regalias, por que me preocupar com os outros e ficar perdendo meu tempo em debates, discutindo o futuro de minha cidade e do mundo?
Desejamos um feliz ano novo para alguém que está numa pior, sem perspectivas de mudanças, no maior sofrimento, com o maior descompromisso. Parece que achamos que o papai noel vai salvar o país e o mundo das garras dos gananciosos, dos despreocupados com a situação do planeta. Por aqui não há catástrofes, elas já estão por perto, mas demorarão para chegar em nossas casas...
Fechamos os olhos e não vemos as injustiças diárias em nossos portões, em nossas atividades públicas e privadas. Acreditamos nas estatísticas com a maior inocência, sem o menor espírito crítico.
Nossas autoridades e governantes, e legisladores gozam de nossa admiração mesmo quando esbanjam nosso dinheiro, vivem num sistema de corrupção que já passamos a achar inevitável. Sempre foi assim, todo mundo faz, eles dizem, como que querendo se justificar. E ficamos esperando atitudes de algum poder que possa deter sua sede. E esperamos que os julgadores condenem, façam alguns devolverem o dinheiro roubado, mas as leis que eles mesmos fizeram são frouxas e deixam até o judiciário paralisado com os recursos e as instâncias e o tempo que vai passando, e sempre os mesmos envolvidos, mudando simplesmente de cargos, ou de partidos, ou de estados.
Flutuar no passado pode nos trazer boas lembranças ou até pesadelos, mas pode nos imobilizar. Ir ás profundezas do presente, descobrir suas belezas e seus mistérios é o sabor da vida, mas com respeito, coragem e aquela tolerância que não se alia com o mal ou com o espírito de levar vantagens com omissões espúrias e alianças vergonhosas.
Criar asas que nos transportem pelos ares do futuro com sentimentos de plenitude, de responsabilidade, de compromisso, mesmo às custas de perdas pessoais, mas na sensação de não termos sido alguém mais que só pensou em si, só olhou para seu umbigo, ou para sua conta bancária. A omissão agora pode custar nosso futuro. Nossos líderes não tiveram a coragem de pensar no planeta como um todo, foram pífios e covardes, pensando só em seus interesses locais. O universo não depende de nosso planeta, mas nós não sobreviveremos se não cuidarmos dele, não lá longe, mas por aqui, bem pertinho de nossa casa.
Abra as janelas para saudar a vida que chega com a brisa do despertar do ano Novo.
Dr. José Anézio Palaveri, 1º de janeiro de 2010.
Médico, membro da APLACE.